domingo, 8 de maio de 2011

A Abertura Europeia ao Mundo


Principais centros culturais de produção e difusão de sínteses e inovações


v     Desde finais da Idade Média que as cidades se tinham tornado centros culturais e cosmopolitas, atraindo letrados e estudantes de regiões distantes. Habitadas por comerciantes burgueses e menos sujeitas às pressões senhoriais, desce cedo se tornaram centros criadores e difusores de saber.

v     Cidades como Roma, Florença, Veneza, cheias de ricos comerciantes, estimularam o mecenatismo e estimularam a criação literária e artística através do patrocínio de artistas como Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Rafael, Bramante etc.

v     Também Lisboa e Sevilha foram protagonistas deste grande desenvolvimento cultural e civilizacional. O comércio ultramarino e o exclusivo deste comércio e navegação devido ao Tratado de Tordesilhas, tornou estas cidades centros difusoras de novidades e de saberes.

O Contributo português Inovação técnica; observação e descrição da natureza.

v     As viagens de descobrimento e comércio colocaram em prática muito saberes e aperfeiçoamentos técnicos ligados à arte de marear e às ciências náuiticas,
v     A cartografia (mapas, tábuas de latitudes, traçados correctos de paralelos e meridianos), foi uma das ciências onde os portugueses foram pioneiros.
v     As viagens, trouxeram também as suas descrições e relatos, incentivando o experiencialismo (a experiência vivida como a única forma de saber), em que se distinguiram autores como Fernão Mendes Pinto, Garcia de Orta, Amato Lusitano, Tomé Pires, deixando estudos valiosos sobre a fauna, a flora, os costumes, a medicina, os climas desconhecidos, etc.
v     Distinguiram-se ainda na matemática e na cosmografia Pedro Nunes, D. João de Castro e ainda Duarte Pacheco Pereira, que nos deixou descrições fabulosas das navegações portuguesas.
v     A valorização da experiência e da observação directa dos factos, aliadas ao espírito crítico, foram os maiores contributos do experiencialismo português para o desenvolvimento da sua época.

A Matematização do Real; a Revolução das concepções cosmológicas

v     A Criação do Espírito Matemático

Às constatações empíricas tornava-se necessária a reflexão teórica apoiada no progresso das matemáticas e do raciocínio dedutivo.
Um dos mais importantes contributos foi o de Leonardo da Vinci na definição do método científico.
Tendo a experiência como a base do conhecimento, alia a esta a demonstração matemática das hipóteses suscitadas pela observação que permite a formulação de leis científicas.
            (ver os grandes responsáveis pelo

v     A Revolução das concepções cosmológicas

A visão cosmológica legada por Aristóteles e Ptolomeu de que a terra ocupava o centro do universo foi igualmente posta em causa pelos cosmógrafos do Renascimento.

Um dos mais importantes foi Nicolau Copérnico, natural da Polónia, estudou em Cracóvia, Pádua, Bolonha e Roma. Apresentou uma teoria, que colocando em causa as teorias de Ptolomeu e Aristóteles defendiam:

            1- O movimento comum das esferas pode explicar-se se considerar o movimento da Terra;
            2- Todas esferas celestes giram em torno do Sol, incluindo a Terra; bem como giram em torno de si próprias
            3-: O movimento do sol é aparente o seu movimento não é mais do que a projecção na abóbada celeste do movimento da terra.

           
Porém apesar das descobertas de Copérnico, quem vai realizar as grandes observações que confirmam as teorias copernicianas foi Tycho Brahe que realizou observações que permitiram a Kepler formular matematicamente as teorias que confirmavam o movimento da terra em torno do sol.
           
No entanto quem mais se destacou foi Galileu Galilei que se distinguiu com a lei da queda dos graves e com o telescópio permitiu-lhe realizar observações sobre os corpos celestes e provar a teoria coperniciana.
Com Galileu nasce a ciência moderna. Com Galileu nasce uma nova teoria do conhecimento, que separando a fé da razão substituiu a autoridade pelos dados da observação e da dedução lógica.



Os novos valores do comportamento social. O estatuto de prestígio dos intelectuais e artistas.

Todas as modificações verificadas nos capítulos anteriores deram origem a um forte sentimento de optimismo em relação à vida. As principais preocupações do homem da Idade Média, subjugadas e confrontadas com a ideia da morte pereceram face aos novos valores do homem do renascimento.
Surge então uma nova imagem do homem que fez prevalecer o conceito de humanitas sobre o conceito de nobilitas.


v     A procura de fama e de glória

Este ideal de homem completo incita o humanista pelo gosto pelo conhecimento, em diversas áreas do saber. Da filosofia à história, passando pelas ciências, a construção reveste-se de um conhecimento experiêncialista ao invés do saber livresco e teórico do homem medievo.
Os séculos XV e XVI foram notavelmente fecundos em homens extraordinários pelos seus conhecimentos e aptidões: Príncipes e condottieri, papas e cardeais, burgueses e nobres procuraram tornar-se conhecidos pelo seu saber. Entre estes destacam-se também os Mecenas que perpetuavam o seu nome e valor pela protecção de artistas e intelectuais.
Como reforço por este individualismo, podemos afirmar que entre os gostos da época se sobressai no género literário a biografia, na pintura o retrato e nas ciências a História.

v     O refinamento da sociabilidade

Esta sociedade exigiu, contudo, um refinamento na actuação social, não bastando o aspecto exterior do indivíduo mas as formas de comportamento social. Estas são marcadas por regras de conduta social extremamente rígidas que ostracizam aqueles que não as seguem e conhecem. Estas regras passam pelas formas de vestir, falar, pela beleza física e sobretudo pela beleza intelectual.

v     A espectacularidade das festas

O esplendor desta época é também marcado pelas festas realizadas pelos grandes burgueses e poderosos, nos jardins dos palácios, mas também, organizadas pelos responsáveis pelas cidades e por elementos do clero e pelo Estado, formas de ostentação de poder e de partilha do fausto e do luxo com os humildes e simplórios do povo.
Entre as mais importantes destacam-se as de carácter religioso, (missas, procissões e mistérios), mas existiam também de carácter profano e civis (casamentos de reis, visitas de chefes de estado ou comemorações importantes para as cidades e estados).

Muitos eram os artistas que emprestavam a estas festas e à sua organização todo o seu talento de modo a publicitar quem as organizava, a cidade em causa e o valor das suas obras.
Entre estas festas destacam-se o Carnaval de Veneza ou as festas organizadas em Milão por Sforza para as quais contribuiu o génio de Leonardo da Vinci.

v     O estatuto de prestígio dos intelectuais

As exigências dos novos estados, o alargamento das áreas comerciais ou imperiais, impunham que os estados dispusessem de homens cujo desempenho determinavam o sucesso político dos mesmos. Assim, para a redacção das leis, dos textos de jurisprudência, na elaboração de cartas e de discursos, eram tarefas que exigiam a que as cortes dispusessem de homens competentes para desempenhar estas funções. Estes humanistas e letrados eram os únicos em condições de assumir cargos de tão grande responsabilidade.
Mas esta presença estendeu-se aos músicos e artistas, professores e cientistas que animavam as cortes europeias, tornando-as núcleos de inovação cultural na Europa (da qual a nossa não foi excepção).
Dentro deste plano os reis promoveram a preparação superior de certos clérigos da sua confiança que frequentaram universidades em Salamanca, Paris, Lovaina, Cambridge e Oxford.
Os intelectuais assumem assim, papel preponderante nas cortes da sua época, recebendo reconhecimento e apoio relativamente aos cargos que ocupavam ou às funções que exerciam nas mesmas.
Pouco a pouco estes intelectuais demarcam-se das antigas corporações e associações de ofícios, organizando-se em academias de artes onde discutem os seus estatutos, ideias e gostos, mantendo-se unidos por fortes laços de entreajuda e solidariedade. (veja-se o caso de Camões e de Garcia da Orta)

v     Os Caminhos abertos pelo humanismo. O retorno aos clássicos.

O humanismo é a faceta literária e ideológica do Renascimento.
Desprezando os valores medievais, procuram o retorno aos valores clássicos da Antiguidade. Esta constituía um momento glorioso da história do homem. Petrarca é talvez o primeiro humanista que deslumbrado com os vestígios da civilização romana, considera o restauro da Antiguidade como emergência do pensamento racionalista.

v     O ressurgimento das línguas e dos textos clássicos.

Foi na aprendizagem do grego, do latim e no aperfeiçoamento do hebreu que a erudição humanista se distinguiu. A recusa por tudo o que dizia respeito à Idade Média, e à forma como haviam sido traduzidos e utilizados os textos dos filósofos como Platão e Aristóteles, que os humanistas reagem. A escolástica é recusada e de novo se procura a tradução rigorosa dos originais do novo testamento escritos em grego.

v     A divulgação e imitação dos clássicos

A cultura sai das bibliotecas e dos mosteiros para ser colocada ao serviço de uma colectividade alargada de humanistas que avidamente procuram ler, traduzir, reproduzir as obras dos autores clássicos.
Para a realização deste trabalho muito contribuiu o papel do mecenato e do respectivo mecenas.
Também o paradigma clássico fez nascer nos autores a vontade de imitar as grandes obras e autores clássicos. Foi o caso de Thomas More, autor inglês que na Utopia, procurou a síntese da República de Platão, concebendo um mundo ideal e racionalizado, contra as monarquias despóticas e a ociosidade dos nobres, o luxo dos monges e a corrupção do funcionalismo.
Em Os Lusíadas, Camões procurou escrever uma epopeia à semelhança da Eneida de Virgílio, mas acrescentando aos valores clássicos, o saber de experiência feito do homem moderno.

v     A reinvenção das formas artísticas: O regresso aos clássicos, individualismo e naturalismo.

A arte do renascimento foi marcada por uma nova estética e nova sensibilidade, marcada pelo classicismo, individualismo e naturalismo.

v     Classicismo

Esta corrente estética é marcada pelo revivalismo das formas da arquitectura e gostos clássicos, colocando em causa os gostos estéticos anteriores (o gótico).
Desta forma são as formas clássicas – alicerçadas pela razão – as únicas a projectarem os produtos da criação divina.
A ressurreição das formas de arte clássica surgiu primeiramente em Itália devido às descobertas arqueológicas realizadas durante este período e subsidiadas por mecenas e papas, as quais foram criteriosamente expostas em museus e colecções criadas propositadamente para as salvaguardar.


Na arte, o classicismo manifestou-se a partir dos seguintes processos:
            1- Recuperação de elementos arquitectónicos greco-romano (colunas, pilastras, capiteis, cornijas, frontões, arcos de volta perfeita, abóbadas de berço, cúpulas);
            2- Adopção das temáticas e figuras da mitologia grega

            3- Gosto pela representação da figura humana, vestida ou despida, chegando-se ao ponto de a figura de Cristo se confundir com a de um atleta e a da Virgem Maria, se salientar a graça em detrimento da santidade da figura em termos religiosos.
            4- O sentido de harmonia, simetria e ordem, foram as principais preocupações dos artistas, chegando mesmo a discutir e a especular sobre as medidas ideais do corpo humano), procurando adoptar a medida dos edifícios à medida do homem.

v     Individualismo
A partir de agora, os humanistas assinam as suas obras e revelam a escola a que pertencem, sabendo que o retrato, a estátua se tornam moda neste período, que grandes palácios se constroem para conforto e vaidade do ser humano e que grandes túmulos o glorificam após a morte.

v     Naturalismo
A partir de agora, procura-se ao máximo a captação do real, o realce pelas paisagens como pano de fundo das obras de arte. Também na fisionomia humana se procurou a graça e o movimento das fisionomias retratadas.
Para tal, foi possível devido à descoberta de duas técnicas:
  1. A perspectiva: ou seja a capacidade de reproduzir numa superfície plana objectos e pessoas com o aspecto tridimensional
  2. A pintura a óleo, ou seja, a invenção flamenga que permite a composição de pormenores e uma gama de cores mais rica em tonalidades.

Características da arquitectura renascentista

v     Simplificação da estrutura dos edifícios:
            1- Preferência por abóbadas de berço à estrutura ogival;
            2- A cúpula passa a ser um elemento dominante das construções (à luz da cúpula do panteão de Roma);
            3- Utilização exclusiva do arco de volta perfeita;
v     Adopção de uma gramática decorativa greco-romana:
            1- Emprego de soluções arquitectónicas tipicamente clássicas (colunas - com base, fuste e capitel) das ordens clássicas sobretudo a coríntia e compósita.
            2- Uso de frontões triangulares
            3- A utilização de grotescos para a decoração parietal, ou seja figuras humanas e animal, para a decoração das pilastras, em forma de frescos ou altos-relevos.

A exigência racionalista

A procura da simetria absoluta, onde os eixos de todos os edifícios devem ser simétricos;
A perspectiva linear, ou seja os edifícios no espaço devem corresponder a uma pirâmide visual, encontrando para o observador um ponto de fuga na base do edifício.
Preocupações urbanísticas projectadas para uma cidade ideal, e que na prática se referiu apenas a praças públicas, relacionadas com a harmonia e as respectivas infra estruturas.
A Arquitectura religiosa e civil

Para além dos edifícios religiosos, foram também construídos palácios, castelos e casas burguesas ao gosto da época. As casas eram de decoração exterior simples, ou decoradas com volumetrias exageradas de revestimentos de grandes pedras esquadradas). No interior predominavam o pátio interior, para onde se abriam as portas das câmaras, estas comunicavam entre si por meio de uma série de arcadas apoiadas por colunas (as famosas loggia)
No entanto podemos assistir a edifícios com ordens sobrepostos ou a pureza das formas clássicas, como na fachada do Louvre em Paris.

Ficha Formativa - Teste de Maio

Esta ficha é de revisão da matéria dada para o seu quinto e último teste. Resolva-a atentamente e tire as suas dúvidas na aula de revisões.

Objectivos específicos para o teste:

¨      Conhecem o contributo português na inovação, observação e descrição da Natureza;
¨      Reconhecem a importância da matematização do real e a revolução das concepções cosmológicas.
¨      Explicam como é que o desenvolvimento económico e urbano se reflectiu nas formas artísticas;
¨      Conhecem os principais centros culturais europeus entre os séculos XV e XVI;
¨      Conhecem os valores estéticos patentes na produção artística do Renascimento;
¨     Identificam as características da arte manuelina;

Conceitos: Renascimento, Navegação Astronómica, Cartografia, Experiencialismo, Mentalidade Quantitativa, Revolução Coperniciana. Antropocentrismo, Naturalismo, Classicismo, Perspectiva, Manuelino,

I O alargamento do conhecimento do Mundo

1.       Indique algumas das inovações técnicas que revolucionaram o conhecimento do mundo durante os séculos XV e XVI.
2.       Relacione alguns dos factos que mais contribuíram para o alargamento do conhecimento geográfico durante o Renascimento.
3.       Sintetize os grandes contributos da expansão marítima, nomeadamente da portuguesa, nos domínios da Geografia, da Botânica, da Zoologia e da Cosmografia.
4.       Sublinhe o carácter experiencialista deste novo saber proporcionado pela Expansão Ibérica.
5.       Explique a importância da imprensa para a divulgação e difusão dos conhecimentos do homem do Renascimento.
6.       Demonstre a importância da revolução cosmológica coperniciana como uma manifestação da ciência moderna.

II. A Produção Cultural

1. Indique os processos a partir dos quais se manifestou o classicismo nas formas artísticas.
2. Refira outras características presentes na arte do renascimento.
3. A partir das imagens do seu manual, caracterize a pintura renascentista.
4. Com base nas imagens do seu manual indique de que forma os elementos de originalidade e de criatividade foram expressos pelos pintores deste período.
5. Avalie alguns contributos na valorização da Antiguidade, da racionalidade e espírito crítico, do humanismo renascentista.
 Bom Trabalho

Matriz do Teste de Maio



Grupo I (Questões 1, 2 e 3 a valer 30/30/50 pontos)
  • Reconhecem o papel de vanguarda dos portugueses na abertura europeia ao Mundo e sua contribuição para a síntese renascentista.
  • Identificam a emergência e a progressiva consolidação de uma mentalidade quantitativa e experimental que prepara o advento da ciência moderna e proporciona ao Homem um maior domínio do conhecimento do Mundo.



Grupo II (Questões 4,5 e 6 a valer 30/30/30 pontos)
  • Identificam na produção cultural renascentista as heranças da Antiguidade Clássica.
  • Desenvolvem a sensibilidade estética através da identificação de obras artísticas e literárias do período do Renascimento.
  • Reconhecem o prestígio da coroa portuguesa na Época Moderna e a função valorizante da produção artística e literária nacional.

domingo, 13 de março de 2011

Matris para o Teste de Março

Matriz do Teste de 25 de Março de 2011 – 10º Ano (Turma E)
HISTÓRIA A
Professora: Leonor Baião


GRUPO I

¨     Conhecem como se fixaram os limites do território português.
¨     Explicam como se exercia o poder concelhio e que importância tiveram os concelhos.
¨     Conhecem como se exercia o poder senhorial e como estava organizada a sociedade.

Questões 1, 2, 3, e 4 (valor de cada questão 30 pontos)

GRUPO II

¨     Reconhecem a importância que teve a centralização do poder régio na coesão interna do reino.

Questões 5 e 6 (valor da questão 5 – 30 pontos; valor da questão 6 – 50 pontos)

sábado, 12 de março de 2011

Ficha de Trabalho Nº 4

Esta ficha é de revisão da matéria dada para o seu quarto teste. Resolva-a atentamente e tire as suas dúvidas na aula de revisões.

Objectivos para o teste:

¨      Conhecem como se fixaram os limites do território português.
¨      Explicam como se exercia o poder concelhio e que importância tiveram os concelhos.
¨      Conhecem como se exercia o poder senhorial e como estava organizada a sociedade.
¨      Reconhecem a importância que teve a centralização do poder régio na coesão interna do reino.

Conceitos: Reconquista, Concelho, Carta de foral, mesteiral, Monarquia feudal, Cortes, Inquirições, Legista.

I. Da Reconquista ao Estabelecimento de Fronteiras

  1. Integre a Reconquista do reino de Portugal na Reconquista Peninsular.
  2. Explique a doação do Condado Portucalense a D. Henrique.
  3. Refira a importância da assinatura do Tratado de Alcanises para a definição da fronteira portuguesa.
II. O País Urbano e Concelhio
  1. Integre a concessão de forais e a formação de concelhos no contexto da Reconquista.
  2. Justifique o grande crescimento da cidade de Lisboa nesta época.
  3. Refira os diferentes estatutos dos membros dos concelhos.
  4. Explique como se exercia o poder concelhio

III. O poder régio, factor estruturante da coesão interna do reino
  1. Caracterize a monarquia feudal.
  2. Explique o papel dos primeiros reis de Portugal no processo de centralização do poder régio.
  3. Refira a importância das cortes como um dos instrumentos de centralização régia.
  4. Indique algumas das medidas régias de combate à expansão senhorial.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Museus do Mundo

A Google revelou hoje mais uma novidade. A partir de agora é possível, através do Art Project ( http://googleartproject.com/ ) visualizar 17 dos museus de arte mais importantes do mundo sem sair de casa ou mesmo da cadeira!

Eu já os fui espreitar e vala a pena :-)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Espaço português - a consolidação de um reino cristão Ibérico.

A FIXAÇÃO DO TERRITÓRIO – DE D. AFONSO HENRIQUES A D. AFONSO III

Com origem no primitivo Condado Portucalense, o reino de Portugal autonomizou-se da restante península no século XII, graças à acção tenaz e empenhada de D. Afonso Henriques (1109?-1185). Logo em 1128, o jovem príncipe mostrou as suas ambições ao derrotar as tropas de sua mãe, D. Teresa, na batalha de São Mamede, e assumir, de imediato, o governo do Condado Portucalense. Depois vieram as peripécias da sua luta contra o primo Afonso Raimundes, rei-imperador de Leão e Castela com o nome de Afonso VII. O Acordo de Tui, celebrado em 1137, lembrava a Afonso Henriques os seus deveres vassálicos de fidelidade, segurança, auxílio militar e conselho para com Afonso VII, seu suserano. Pouco durou. Logo em 1140, o insubmisso Afonso Henriques invadiu a Galiza e Afonso VII retaliou, entrando hostilmente em terras portucalenses. A paz definitiva só chegaria, contudo, em Outubro de 1143, na Conferência de Zamora, quando Afonso VII reconheceu a Afonso Henriques o título de rex, que ele, aliás, orgulhosamente ostentava desde 1139; mas, uma vez mais, a condição de vassalo de Afonso Henriques era reiterada. Decidido a pôr cobro a tal sujeição, Afonso Henriques procurou o reconhecimento do seu título e do seu reino perante o chefe máximo da Cristandade: o Papa. Em 1142, dispôs livremente do território portucalense, que encomendou à Santa Sé e a quem prometeu um tributo anual em ouro. Em 1179, finalmente, o papa Alexandre III reconheceu, através da bula Manifestis Probatum, Afonso Henriques como rei e Portugal como reino independente. A independência de Portugal configurou, portanto, um acto típico de rebeldia feudal. Como seria de esperar num tempo marcado pelos conflitos entre reis e senhores, ávidos uns e outros de terra, privilégios, poder! Mas também é verdade que tal acto teve a seu favor um contexto político, militar e religioso favorável: a Reconquista cristã da Península Ibérica aos Muçulmanos. De facto, foi no contexto da Reconquista que os monarcas cristãos da Península Ibérica — das Astúrias a Leão e Castela, de Navarra a Aragão e a Portugal — alargaram, durante séculos, o território dos seus remos, definiram fronteiras, consolidaram autonomias e fortaleceram os seus poderes.
D. Afonso Henriques não foi excepção. Não satisfeito com as fronteiras do condado que arrebatara a sua mãe e transformaria em reino, expandiu-lhe o território. Consolidou o domínio da linha do Tejo, com as conquistas de Santarém e Lisboa em 1147. Em 1158, firmou a presença portuguesa na linha do Sado com a conquista de Alcácer do Sal. Em 1162 e 1165, Beja e Évora, respectivamente, caíram em mãos dos Portugueses. Em 1185, morreu Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, a quem a História chamaria o Conquistador. Entre avanços e recuos, a Reconquista do reino de Portugal prosseguiu durante aproximadamente mais um século. D. Sancho 1 rei de
1185 a 1211, mostrou-se, tal como seu pai, um grande chefe guerreiro, apesar de ter sido menos feliz. A sul do Tejo perderam todas as posições, à excepção de Évora. Já D. Afonso II, rei de 1211 a 1223, revelou-se um monarca de acção militar inferior, tão absorvido que esteve na organização da administração e na consolidação do poder real. Com D. Sancho II, rei de 1223 a 1245, a fronteira portuguesa avança vitoriosamente no Alentejo, beneficiando da tomada leonesa das cidades muçulmanas de Cáceres, Mérida e Badajoz. Do seu reinado datam as conquistas de Elvas, Jurumenha, Serpa, Moura, Beja, Aljustrel e Mértola, revestindo-se esta de um significado particularmente especial por se tratar de um afamado centro muçulmano. Entre 1234 e 1238, a soberania portuguesa chegou ao Algarve oriental. Foi no reinado de D. Afonso III (1248-1279) que, através de uma campanha fulgurante, se concluiu a conquista do Algarve. Em Março de 1249, o monarca apoderou-se do enclave isolado que os muçulmanos ainda detinham no Algarve. O Norte cristão anexava para sempre o Sul islâmico e a Reconquista portuguesa chegava ao fim.

DO TERMO DA RECONQUISTA AO ESTABELECIMENTO E FORTALECIMENTO DE FRONTEIRAS

Porém, quase meio século haveria de decorrer entre o termo da Reconquista (1249) e o estabelecimento definitivo das fronteiras portuguesas (1297). Com Leão e Castela outra luta se travaria. Em 1252, Afonso X de Leio e Castela, acabado de chegar ao trono, reivindicou o ex-reino algarvio de Niebla (onde se incluía Silves), alegando que a sua soberania lhe havia sido cedida pelo respectivo rei mouro. Pelo Tratado de Alcanises, celebrado em 1297, entre D. Dinis e Fernando IV de Castela, ao mesmo tempo que se projectavam casamentos reais e uma paz de 40 anos baseada na «amizade e defesa mútuas», fixavam-se os limites territoriais dos dois remos hispânicos. Com pequenas excepções, o território português adquiria a sua configuração definitiva, o que faz de Portugal o Estado europeu com as fronteiras mais antigas e estáveis.

O CARÁCTER POLÍTICO E RELIGIOSO DA RECONQUISTA

Referimos, há pouco, o carácter político da Reconquista, que serviu aos monarcas ibéricos de meio de afirmação e engrandecimento. Aliás, logo em 718-22, quando se inicia, a Reconquista foi uma questão de sobrevivência política para o pequeno reino das Astúrias. Posteriormente, do século X em diante, os reis ibéricos passaram a considerar-se como os legítimos descendentes dos antigos monarcas visigóticos, cujo reino os invasores muçulmanos tinham usurpado em 711. Toda a terra que ganhavam mais não era do que a recuperação de algo que legitimamente lhes pertencia. Este pensamento viria a ser comum entre os reis de Portugal. Desde finais do século XI, os aspectos religiosos adquirem um carácter mais vincado na luta que opôs os cristãos aos muçulmanos. A relativa tolerância, que parece ter existido e que era fruto de um convívio de quatro séculos, esvai-se perante o fanatismo religioso de almorávidas e almóadas, o qual fomenta, por sua vez, a radicalização dos cristãos. A Reconquista assume, então, contornos de guerra santa, merecedora de tanta consideração como as cruzadas à Palestina. A designação de cruzadas do Ocidente para a Reconquista peninsular confirma aquele facto. Foi assim que os reis peninsulares usufruíram de várias bulas papais que exortavam à expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica, concedendo indulgências aos que participavam na luta. Por várias vezes, os reis de Portugal puderam mesmo contar com a ajuda dos cruzados que estacionavam na nossa costa a caminho da Palestina: em 1147, para a conquista de Lisboa; em 1189, para a conquista de Alvor e Silves; em 1197, para nova tentativa de conquistar Silves; em 1217, na conquista definitiva de Alcácer do Sal. Para o fortalecimento do ideal de cruzada muito contribuíram, também, as ordens militares e religiosas introduzidas na Península no século XII: os Templários em 1128; os Hospitalários cerca de 1150; os monges de Calatrava e de Santiago cerca de 1170. Todos eles se revelaram auxiliares preciosos na conquista de terras alentejanas e algarvias, que tão bem defenderam e povoaram.


OS SENHORIOS – SUA ORIGEM, DETENTORES E LOCALIZAÇÃO

Tal como na Europa além-Pirenéus, o senhorio peninsular configurou uma área territorial, mais ou menos extensa e nem sempre contínua, cujo detentor — o senhor —, exercia poderes sobre a terra e sobre os homens que nela residiam. No caso português, os senhorios pertenciam ao rei — o chamado Dominus Rex (Senhor Rei) —, à nobreza e ao clero e a sua origem remonta à apropriação do território pelos cristãos. Denominou-se esta de presúria e mais não era do que a simples ocupação das terras consideradas vagas pela expulsão dos muçulmanos. Claro que a maioria dos territórios obtidos por presúria pertenciam ao rei. Chamavam-se reguengos e, com o tempo, viram-se reduzidos em virtude de amplas doações à nobreza e ao clero. Ocupar o território, recompensar serviços prestados e obter o favor divino foram os principais motivos que conduziram os nossos primeiros monarcas a alienarem significativas parcelas de propriedade territorial.
O Norte atlântico tornou-se a terra de eleição do senhorialismo nobre. Aí tiveram lugar as presúrias da fidalguia hispânica, reconhecíveis nos abundantes topónimos de origem germânica do Entre Douro e Minho (Leomil, Lalim, Roriz, Atães...). Aí também se exerceram os mais antigos cargos públicos, delegados pelos reis de Leão na nobreza condal. Tais cargos faziam-se acompanhar de dotações territoriais que os retribuíam; ambos eram conhecidos pelo nome de honores. Eis a origem do termo honras com que são, vulgarmente, designados os senhorios nobiliárquicos.

O clero constituiu outro protagonista do senhorialismo do Norte atlântico. Se os castelos, torres e solares expressam o poder nobre, os mosteiros e as sés são o símbolo do poder clerical. No Norte atlântico, sobressaíram as casas das ordens religiosas dos Beneditinos, tal como as sés de Braga e Porto. Outro mosteiro famoso foi o de S. Salvador de Grijó, a sul do rio Douro. Pertencia aos cónegos regrantes de Santo Agostinho. É costume designar de coutos os senhorios da Igreja. Tal se deve à sua origem. Criados por uma carta de couto, gozavam, perante o rei, de isenção judicial, fiscal e militar. Resultado de doações régias e de legados à hora da morte, da parte de nobres e até de populares, os bens fundiários da Igreja ultrapassavam, nos começos do século XIII, os de qualquer outro proprietário do país. O Centro e o Sul converteram-se, mesmo, na zona dos grandes senhorios da Igreja. Com efeito, eram bem extensos os domínios que bispos, mosteiros e ordens religiosas militares possuíam a sul do Mondego. Nas vertentes ocidentais da serra da Estrela estabeleceram-se os monges de Santa Cruz de Coimbra, o cabido e o bispo da cidade. Na Estremadura Central, os cistercienses de Alcobaça, mosteiro surgido entre 1148 e 1153, transformaram terrenos inóspitos em terras altamente produtivas. O núcleo do seu couto estendia-se da serra dos Candeeiros até ao mar, numa largura de
20 km. Entre as entidades religiosas de maior projecção económica, situavam-se as ordens religiosas militares, que, sobretudo no Sul, à medida que a Reconquista progredia, foram encarregadas da defesa da fronteira portuguesa com doações imensas. Os Templários estabeleceram-se na Beira Baixa e no Alto Alentejo. Em 1198, receberam perto de 100 km de extensão, em terras dos dois lados do Tejo! Também aqui dispunham os Hospitalários de domínios, embora mais modestos; a sua sede foi transferida de Leça para o Crato, no século XIV. Calatrava recebeu vastas doações na região de Évora e Avis, vindo os seus elementos a designar-se de «freires de Avis». Outra ordem foi Santiago da Espada, com enorme implantação dominial na planície alentejana, península de Setúbal, no Baixo Alentejo e no Algarve.


O EXERCÍCIO DO PODER SENHORIAL: PRIVILÉGIOS E IMUNIDADES

* Graus de nobreza

A origem do poder senhorial encontra-se no Norte atlântico e teve como protagonista a nobreza senhorial do Entre Douro e Minho.
No sangue (nascimento), no poder económico, na força das armas e na autoridade sobre os outros homens residiam as bases da superioridade social dos nobres. Nas suas fileiras encontramos, de início, os infanções, em quem os condes de Portucale delegaram funções públicas de governação de terras (unidades administrativas) e castelos. Foi com o apoio e a força dos infanções que o conde D. Henrique governou o Condado Portucalense e Afonso Henriques concretizou a sua independência e alargou o território.
De entre os infanções, destacaram-se cinco famílias que atingiram o topo da escala social no século XII, conforme nos elucida o Livro Velho de Linhagens. Foram as famílias da Maia, de Riba Douro, de Sousa, de Baião e de Bragança; a sua base territorial situava-se entre o Lima e o Douro, com extensões para a terra de Santa Maria e a região de Arouca. Passam, desde então, a integrar o grupo dos ricos-homens, espécie de alta nobreza que é chamada a intervir nos assuntos da corte. Os ricos-homens distinguiam-se pela posse de avultados domínios, onde exerciam a jurisdição e gozavam de isenções fiscais. Eram também conhecidos por «senhores de pendão e caldeira», em alusão aos séquitos militares que comandavam e sustentavam.
Em meados do século XIII, os ricos-homens constituíam o estrato dominante da sociedade portuguesa. Os infanções, que se lhes seguiam, viam já os seus poderes consideravelmente diminuídos; no século XIV, o termo infanção cairá mesmo em desuso, dando lugar ao de fidalgo. Outros graus de nobreza medieval eram preenchidos com os cavaleiros e escudeiros. Chamavam-se cavaleiros todos os que eram admitidos à ordem militar da Cavalaria; dedicavam-se à guerra e deviam cumprir um rigoroso código de honra e de cortesia. Em Portugal, como nos restantes rei- nos cristãos ibéricos, o estado permanente da guerra levou a que, na cavalaria, se misturassem indistintamente nobres com indivíduos oriundos dos estratos populares Ldoc.23-B1. Talvez por isso, o código de honra dos cavaleiros nem sempre fosse cumprido. Em momentos de crise social, como aqueles que Portugal viveu de
1220 a 1245, os cavaleiros foram deveras perturbadores, assaltando igrejas e mosteiros, viajantes e peregrinos.

Quanto aos escudeiros, tinham a particularidade de nem todos serem nobres. O escudeiro não fidalgo deveria acompanhar o seu cavaleiro, ajudá-lo a vestir as armas e combater na sua retaguarda.

* A natureza do poder senhorial

O poder senhorial caracterizava-se não tanto pela posse e exploração de terras mas, sobretudo, pelo exercício de funções militares, jurisdicionais e fiscais. Mais do que económica, a sua natureza foi política.
O poder senhorial corresponde, assim, ao poder banal (bannus) da Europa além-Pirenéus, que conferia aos senhores o comando, a punição, a coacção sobre os habitantes do senhorio. Trata-se de autênticos poderes públicos que, no nosso território, a nobreza senhorial obteve, na origem, por delegação da autoridade régia ou condal (como administradores de terras e castelos). Com o tempo, usurpou aqueles poderes, não prestando contas a quem lhos delegou, e, no cúmulo dos abusos, estendeu-os aos seus domínios pessoais e, inclusive, à propriedade livre (simples alódios ou, até, territórios de outros senhores).

O poder senhorial comportava vários privilégios. Baseava-se, em primeiro lugar, na posse das armas e no comando militar. No século XI, os infanções portucalenses tinham já os seus cavaleiros e peões armados, que lhes permitiam organizar expedições ofensivas e controlar fortificações em lugares estratégicos, assim como as respectivas populações.

Em segundo lugar, o poder senhorial fazia-se sentir na exigência de multas judiciais. Relacionavam-se com o exercício de justiça por parte do senhor.

Finalmente, o poder senhorial afirmava-se na cobrança de crescentes e arbitrárias exigências fiscais, entre as quais poderemos referir:
— as banalidades, pelo uso dos instrumentos de produção (forno, moinho e lagar) e sobre as actividades comerciais e os transportes (peagens e portagens);

— o jantar, dever de alimentar o senhor e o seu séquito;
— a lutuosa e a manaria, espécie de impostos de sucessão;
— as osas ou gaiosas, prestações pagas por quem casasse fora do domínio senhorial.
 
O poder senhorial converteu-se, pois, em factor de prestígio e de enriquecimento para infanções e ricos-homens, que, desde o século XI, assumiram os mecanismos do poder local na região do Norte atlântico. Com o avanço da Reconquista, o poder senhorial expandiu-se ao Centro e Sul de Portugal, em virtude da constituição de senhorios nobres e, sobretudo, de grandes senhorios da Igreja.
Referimos já que os senhorios da nobreza eram as honras, enquanto os eclesiásticos são conhecidos pelo nome de coutos. Ambos eram considerados territórios imunes, pois neles não entravam funcionários régios no desempenho das suas funções militares, judiciais e fiscais. Pelo contrário, conforme vimos, eram os senhores que exerciam esses poderes. A diferença entre uma honra e um couto deve-se ao modo como a imunidade foi conquistada. No caso dos coutos, foi através de uma carta de couto. Pelo facto de a maior parte das cartas de couto terem sido atribuídas à Igreja, couto tornou-se a expressão generalizada para designar os seus senhorios.
Embora muitos nobres também tivessem sido contemplados com cartas de couto, a verdade é que o seu património era maioritariamente constituído, e daí conhecido, por honras. A imunidade de uma honra resultava de o seu senhor ser um nobre que exercia os poderes públicos (por delegação, usurpação e herança, com o tempo) e que, por isso, «honrava» o respectivo território. Não admira pois que os senhores procurassem estender a imunidade aos seus simples domínios ou à propriedade livre (alódios), começando a exigir neles as exacções cobradas nas honras. Um dos processos utilizados para o efeito consistia em pôr o filho de um nobre na casa de um camponês, para ser «criado». Imediatamente a terra se considerava «honrada» pela presença, ainda que breve, do jovem nobre. Era o chamado amádigo, que deu lugar a abusos.

A EXPLORAÇÃO ECONÓMICA DO SENHORIO

Para além do poder senhorial, a propriedade de bens fundiários constituía outro dos sustentáculos das classes nobre e eclesiástica. Esses bens chamavam-se domínios senhoriais e, no caso do Norte atlântico, jamais adquiriram a extensão dos latifúndios de além-Pirenéus, quer devido à densidade populacional, quer à morfologia do solo. Resumiam-se, frequentemente, a um conjunto de parcelas territoriais dispersas, que dificilmente ultrapassavam os 600 ha de área, distribuídos por campos de cereais, vinhas, pomares, pastos, bosques.
Tomemos, como exemplo de exploração económica do senhorio, os domínios nobres do Norte atlântico. Tal como no Ocidente medieval, compreendiam uma reserva, conhecida por quintã, e as unidades de exploração arrendadas, que eram os casais. Ambas eram a fonte de direitos dominiais, provenientes da exploração do solo pela massa de camponeses. A quintã, também chamada de paço por nela se encontrar a morada do senhor, para além dos estábulos, celeiros e igreja, incluía uma porção diminuta de terras, o que nos prova o desinteresse da nossa nobreza pela administração directa dos seus domínios. Na verdade, os senhores preferiam o arrendamento das suas propriedades, divididas em casais ou vilares, que correspondiam aos mansos europeus; a área de cada casal, subdividido, por sua vez, em glebas, que podiam distar umas das outras, dificilmente ultrapassava a média de
10 ha. A exploração da quintã cabia aos escravos, servos e colonos livres dos casais que aí prestavam serviços gratuitos e obrigatórios durante um certo número de dias por ano: eram as jeiras. Em Portugal, esta forma de exigência jamais foi tão gravosa como as corveias de outras regiões da Europa, e nem sequer forneceu o essencial da mão-de-obra. Por sua vez, no âmbito da exploração dos casais, celebravam-se contratos entre os senhores e os colonos, também chamados de “caseiros”. Esses contratos podiam ser perpétuos, mas a tendência foi para o emprazamento, isto é, o arrendamento por duas ou três vidas. As rendas neles consignadas eram de dois tipos: fixas ou de parceria, correspondendo, neste último caso, a uma fracção das colheitas. Quanto aos domínios eclesiásticos, salienta-se o facto de a exploração económica ser aí mais rigorosa e o controlo senhorial mais absorvente. Nas suas granjas praticava-se, de preferência, a administração directa. E em bons pergaminhos se anotavam as rendas que cada casal devia pagar. Nos começos do século XIII, estava já instituído o pagamento da dízima à Igreja. Recaía em 10% de toda a produção bruta (agrícola, pecuária) e nem os rendimentos régios dele estavam isentos!

A SITUAÇÃO SOCIAL E ECONÓMICA DAS COMUNIDADES RURAIS DEPENDENTES

Nos seus domínios e senhorios (honras e coutos), a classe senhorial controlava uma multiplicidade de homens — os dependentes. Exigia-lhes tributos e prestações, que temos vindo a especificar: uns provenientes da exploração do solo (rendas e jeiras), os chamados direitos dominiais; outros resultantes do exercício do poder político, isto é, os verdadeiros direitos senhoriais. No século XIII, mais precisamente em 1211, uma lei de Afonso II afirmava que todo o homem livre devia depender de um senhor (nobre, clérigo ou o rei), a menos que já vivesse inserido num senhorio. Isto significou, antes de mais, que os herdadores, proprietários de terras alodiais, passaram a ser sujeitos a prestações senhoriais, como o jantar, a lutuosa, a ramada, a entroviscada, a anúduva, a «voz e coima», a «ossadeira». Prestações que eram pagas a um senhor ou ao rei. Existiu, pois, uma degradação do estatuto dos herdadores. Quanto aos colonos (chamados de foreiros, malados, vilãos), homens livres que trabalhavam em terra alheia, viram, desde o século XIII, os contratos a prazo prevalecerem sobre os arrendamentos perpétuos, misturando-se neles as prestações dominiais com novas imposições de cariz senhorial. A confusão entre domínio e senhorio era cada vez maior.
A sociedade senhorial comportava a existência de servos: eram os descendentes de escravos libertos, a quem foram entregues casais para exploração e que eram especialmente sobrecarregados com as jeiras. Deixaram de se distinguir dos colonos, no século XII, tanto mais quanto as jeiras também incidiram sobre estes.
Se a servidão regredia, a escravatura aumentava. Tal aconteceu desde a segunda metade do século XI, através do crescente afluxo de cativos mouros, empregues em trabalhos domésticos, no artesanato e até na agricultura. Restavam os assalariados (cabaneiros, moços de lavoura...), que viviam do aluguer do seu trabalho, demasiado na época das colheitas, escasso no Inverno. À semelhança dos caçadores, colmeeiros e pastores (sobreviventes de antigas formas de organização económica), achavam-se mal integrados na lógica do sistema senhorial.

O PAÍS URBANO E CONCELHIO – A MULTIPLICAÇÃO DE VILAS E CIDADES CONCELHIAS

O país rural e senhorial, nascido no Entre Douro e Minho, cedo se complementou com um país de cidades e vilas concelhias. Trata-se do país urbano e a sua pujança e protagonismo verificam-se do século XII em diante. Mas em que contexto as cidades e vilas irromperam e se desenvolveram em território português? Recuemos no tempo. Em 1064, Coimbra é definitivamente conquistada aos muçulmanos. Em 1075, a construção da catedral de Santiago de Compostela, onde se abrigava o túmulo do apóstolo, faz deste local um dos centros de devoção mais concorridos da Cristandade medieval. Tal significa que o espaço a norte do Mondego, que em breve fará parte do reino de Portugal, se vê sulcado de peregrinos e caminhos que demandam a cidade do noroeste da Galiza. Com tal movimento, é natural que os núcleos urbanos se revitalizem, readquirindo um dinamismo desconhecido há séculos, pelo estado de guerra então vivido. O Porto e Guimarães, por exemplo, saem beneficiados. Entretanto, a Reconquista prosseguia e, com ela, territórios de forte presença urbana, que o domínio muçulmano além de preservar soubera estimular, acrescentavam-se ao Norte tradicionalmente rural e senhorial. Referimos já a conquista de Coimbra; à cidade do Mondego juntavam-se, na segunda metade do século XII, Lisboa, Santarém e Évora como pólos estruturadores da futura evolução económica e política do reino de Portugal. Doravante, o Entre Douro e Minho ficará secundarizado face a um Centro e Sul que dele recebe excedentes demográficos, que herda os saberes artesanais e os contactos comerciais do mundo muçulmano, que valoriza as transacções monetárias e onde comunidades de homens livres, e não exclusivamente os senhores, tomam nas mãos o exercício do poder local. Eis um dos motivos por que Afonso Henriques transfere a capital de Guimarães para Coimbra. Libertava-se das exigências da fidalguia nortenha, que o pusera no trono e angariava apoios de estirpes menos nobres, é certo, mas, nem por isso menos gratas e ousadas.

A presença da corte, então verdadeiramente itinerante, nas cidades do Centro (Coimbra, Leiria) e Sul (Santarém, Lisboa, Évora) contribuiu, por seu turno, para a consolidação das estruturas urbanas do reino nos seus primeiros séculos de existência. Com o seu séquito de funcionários e letrados, a proliferação de serviços burocráticos e de forças militares, cada vez mais se distanciavam aqueles centros urbanos do país rural, face ao qual se sentiam mais poderosos e esclarecidos. Se a presença régia prestigiava uma urbe, não menor engrandecimento derivava das suas funções eclesiásticas. Referimo-nos, concretamente, às sedes de bispado, as únicas a merecerem a designação de cidades. Remontavam aos primeiros tempos de organização do Cristianismo na Península e, certamente, a sua reconquista e posterior restauro foram motivo de desmedido orgulho.
A urbanidade de uma povoação media-se, em grande parte, pelo seu grau de superintendência jurídica. A cidade e a vila concelhia dispunham, na verdade, de uma capacidade auto-administrativa, maior ou menor, que os monarcas e, às vezes, um senhor lhe concederam através de uma carta de foral. Num país que nasceu à sombra de castelos e igrejas, compreende-se o privilégio que representava a vida num concelho, onde as amarras senhoriais eram mais ténues ou praticamente inexistentes. Ele explica-se, especialmente, pela necessidade de atrair moradores a zonas que urgia defender e povoar: a Beira interior, a Estremadura, o Alentejo. Nestas regiões se situaram, predominantemente, os concelhos perfeitos ou urbanos, cuja organização analisaremos mais adiante.
O desenvolvimento urbano dependeu da proximidade dos eixos de comunicação, da facilidade dos transportes terrestres, do estabelecimento e dinamismo de uma rede comercial. Para alimentar a sua população e, em simultâneo, exportar as suas produções rurais e artesanais, a cidade deve inserir-se numa vasta rede de trocas. Ao surto urbano português não é, por conseguinte, estranho o ressurgimento comercial que o Ocidente medieval viveu a partir do século XII. Não é por acaso que as urbes de maior dimensão, como Guimarães, Porto, Coimbra, Santarém, Lisboa e Évora, se localizavam num eixo norte-sul paralelo à costa atlântica, com a qual facilmente comunicavam. Ao dinamismo dos seus mercadores se deve a concessão das respectivas cartas de foral.
* Concluindo:

Beneficiando das peregrinações a Santiago de Compostela, do avanço da Reconquista, da estância da corte régia, do restauro das sés episcopais, da criação de concelhos e do dinamismo comercial, Portugal recuperou, desde o século XII, uma fisionomia urbana.




A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO CITADINO

* Urbanismo cristão e urbanismo muçulmano
Embora os Romanos, com o seu espírito prático e organizador, nos tivessem legado cidades regulares construídas segundo o sistema em quadrícula, a verdade é que as urbes medievais portuguesas já nada revelavam do urbanismo latino. Sucessivas invasões e contributos civilizacionais de Godos e Muçulmanos, a construção desorganizada e os acidentes de terreno somaram-se, durante séculos, para conferir um fácies à cidade portuguesa que não a afastava muito das suas congéneres peninsulares. Assim, quer no nosso território quer na restante Ibéria, distinguia-se, em princípio, um urbanismo cristão, a norte, de um urbanismo muçulmano, mais nítido à medida que caminhamos para sul. Apesar de não faltarem no primeiro as ruas tortuosas e os becos sem saída, como em qualquer cidade medieval que se prezava, o facto é que a urbe cristã sempre dispunha de uma ou mais praças (um luxo nas densas e labirínticas cidades do sul!) e, de um modo geral, irradiava a partir de um centro, enquanto a cidade muçulmana se distribuía pela alcáçova, reservada aos dirigentes, e pela almedina, a zona popular. De fundação cristã ou de influência muçulmana, há, no entanto, traços comuns no urbanismo medieval, tanto mais quanto os contactos económicos e culturais não escasseavam, mesmo quando os dois mundos ferozmente se digladiavam; e tanto mais também quanto, à medida que a Reconquista progredia, a integração das diferenças se processava.

* O espaço amuralhado

Antes de mais, a cidade medieval portuguesa, como as suas irmãs peninsulares ou os burgos europeus, destacava-se na paisagem por estar envolta numa cintura de muralhas. De maior ou menor perímetro, com as suas ameias e os seus cubelos, a muralha delimitava o espaço urbano, dava-lhe segurança e proventos (pelas inúmeras taxas pagas nas suas portas e postigos), além de embelezá-la! Com indisfarçável orgulho, os citadinos gravavam, nos seus selos concelhios, as muralhas, qual símbolo do poder e autonomia.
Desde o século XIII, o crescimento demográfico do reino e as movimentações populacionais estiveram na origem de reestruturações urbanísticas de vulto. As obras iniciaram-se ainda com D. Dinis, prosseguiram com D. Afonso V e terminaram no reinado de D. Fernando, que passou à História como o monarca construtor de cercas por excelência. Muitos dos antigos arrabaldes (bairros extra-muros) bem como zonas rurais ficaram, então, incluídos nas novas cinturas de muralhas e não tardaram a encher-se de construções e habitantes.

Toda a cidade medieval comportava uma zona nobre, um centro, que se distinguia do restante espaço. E dizemos nobre, não porque nele habitassem os aristocratas de sangue — que, aliás, sofriam de várias limitações para construir casas na cidade —, mas porque nele se situavam os edifícios do poder e moravam as elites locais. Referimo-nos ao castelo ou à torre de menagem do alcaide, à Sé ou igreja principal, ao paço episcopal, aos paços do concelho, às moradias dos mercadores e mesteirais abastados. São edifícios altivos, de robusta pedra que desafia os tempos. Não longe deles estava o mercado principal numa praça ou rossio, se bem que muitos outros mercados proliferassem no interior da cidade medieval. Fora daquele centro, que hoje nos chocaria pelo amontoado das construções e pela falta de espaço que, por certo, impediria uma boa panorâmica da catedral, a cidade espraiava-se numa desordem total. Só no reinado de D. Dinis se abriram ruas para servirem de eixo ordenador do espaço urbano. Mais largas que o habitual iam directamente de um ponto ao outro da cidade, ligando duas das suas portas. Chamavam-se ruas direitas e, tal como as ruas novas surgidas desde o século XII, enchiam de satisfação os citadinos, que aí abriam as suas melhores oficinas, lojas e estalagens. Tudo o mais eram ruas secundárias, autênticas vielas para os nossos padrões, fétidas, escuras e poeirentas, raramente calcetadas, onde os despejos se faziam a céu aberto, cães e porcos focinhavam e mil perigos espreitavam. Nelas se distribuíam as habitações populares, as oficinas dos mesteirais, as tendas para a venda dos produtos e, até, albergarias e hospitais, que acolhiam peregrinos, pobres e doentes. Uma curiosa compartimentação sócio-profissional levava a que os ofícios se agrupassem em ruas específicas, que a toponímia viria a perpetuar. Donde os curiosos nomes das ruas dos Sapateiros, Correeiros, Pelames, Caldeireiros, do Ouro, da Bainharia ou dos Mercadores. Facilitava-se, desse modo, a aquisição da matérias-primas, a aprendizagem das técnicas, a comercialização de bens. Não faltavam, na cidade medieval portuguesa, as minorias étnico-religiosas: os judeus e claro, por razões históricas, os mouros submetidos. Muitos dos judeus eram mesteirais (ourives, alfaiates, sapateiros), mas houve-os também médicos, astrónomos, cobradores de rendas. Mais letrados que o comum dos cristãos (as discussões teológicas, na sinagoga que também era escola, a tal os predispunha), mais abastados, dados à usura e ao negócio, embora os humildes não faltassem, os judeus viviam em bairros próprios, as judiarias, com os seus funcionários, juízes e hierarquia religiosa. Durante séculos, e apesar do antagonismo religioso e de pontuais invejas motivadas pela sua superioridade económica e intelectual, a sociedade portuguesa tolerou os judeus e as cidades, como vimos, albergaram-nos dentro de muros. Um grupo numeroso de judeus era, aliás, entendido como símbolo de dinamismo económico do burgo.

Em finais do século XV, a convivência entre os dois credos romper-se-ia Referimo-nos ao momento em que um edicto de D. Manuel obrigou os judeus à conversão, sob pena de expulsão. Quanto à comunidade mourisca, não foi senhora de uma abastança comparável à dos judeus. A opinião pública fixou a máxima do «trabalhar que nem um mouro» sinal da condição inferior dos islâmicos. Mas nem por isso os cristãos deixaram de os recear: relegaram-nos, também, para bairros próprios — as mourarias—, que fizeram situar no arrabalde.

  • O arrabalde

Localizado fora de muros, o arrabalde acabou por se transformar num prolongamento da cidade. Nele se encontravam as hortas, tantas vezes designadas de almuinhas (palavra de origem árabe), que, juntamente com os ofícios poluentes (pelames ou curtumes), estavam próximos de cursos de água. Os ferreiros eram outro grupo de mesteirais que, frequentemente, se fixava nos arrabaldes. A fuligem e o barulho ensurdecedor que saía dos seus martelos e bigornas tornava-os tão indesejáveis, no espaço intra-muros, quanto os surradores e os carniceiros. Outros, como os carpinteiros e calafates navais do Porto, desceram as escarpas da sua acidentada cidade, vindo fixar-se à beira-rio onde deram origem ao próspero arrabalde de Miragaia. Para muitos mesteirais e mercadores, o arrabalde constituía um local privilegiado. Instalando as suas oficinas e lojas nas vias que conduziam às portas da cidade, eram naturalmente os primeiros a abastecerem os que dela saíam e os que nela entravam. No arrabalde semanalmente, tinha lugar um bem fornecido mercado, onde citadinos e aldeãos se cruzavam. Nem sequer animação lá faltava: aos habituais malabaristas e saltimbancos vinham juntar-se, por vezes, as touradas. Contudo, um certo ar de marginalidade rodeava o arrabalde. Não só as actividades menos limpas para ele eram remetidas. Os pedintes e os leprosos, esses párias que a sociedade medieval hostilizava, confinavam-se ao seu espaço. Eis o motivo por que as ordens mendicantes se instalaram nos arrabaldes desde o século XIII. Atraídos pelo mundo da pobreza e da exclusão, Franciscanos e Dominicanos desempenharam com êxito a sua missão de assistência e protecção aos humildes e desenraizados.

* O termo

Para além do arrabalde, espraiava-se o termo, espaço circundante de olivais, vinhas ou searas e aldeias várias incluídas. Sem o termo a cidade medieval não poderia viver. Nele exercia a jurisdição e o domínio fiscal; nele impunha obrigações militares. A tal dava direito a autonomia das cidades e vilas concelhias... Semanalmente, os aldeões do termo acorriam ao mercado que se realizava junto às portas da cidade. Traziam os indispensáveis produtos da terra; no fim das vendas, não partiriam, certamente, sem antes transporem a muralha e adquirirem nas lojas uma peça de pano, calçado ou as alfaias agrícolas de que estavam necessitados. Tal era o prestígio e a abastança oriundos da posse do termo que os monarcas o alargavam ou encurtavam se desejassem agraciar ou castigar as cidades! Foi o que aconteceu na Revolução de 1383-85, em que vilas como Santarém, por seguirem o partido de D.
Beatriz, viram o seu termo reduzido. Já o Porto, que tudo dera à causa do Mestre de Avis, receberia de presente Gaia, Vila Nova, Azurara e Mindelo.

O EXERCÍCIO COMUNITÁRIO DE PODERES CONCELHIOS; A AFIRMAÇÃO POLÍTICA DAS ELITES URBANAS

Já referimos como a necessidade de repovoar o interior e o sul do país, obtendo simultaneamente a ajuda militar das populações, levou monarcas e senhores a reconhecerem a autonomia político-administrativa de parcelas do território. Trata-se dos concelhos, comunidades de homens livres, cujos privilégios e obrigações ficaram consignados nas cartas de foral. Durante os séculos XII e XIII concederam-se forais à maior parte das cidades e grandes aldeias; frequentemente, limitavam-se a sancionar formas embrionárias de organização local e tradições de autonomia existentes no Sul muçulmano. Referimo-nos, concretamente, às liberdades que, nas cidades islâmicas, costumavam ser concedidas às comunidades cristã (moçárabe e judaica). O número mais significativo de concelhos, sobretudo daqueles que lograram maiores capacidades de gestão governativa, situava-se nas regiões fronteiriças das Beiras, na Estremadura e no Alentejo. Eram os chamados concelhos urbanos ou perfeitos. Compreendiam a cidade propriamente dita, ou vila, sedes do concelho, cuja área de influência jurisdicional — o termo — incluía aldeias e uma vasta população rural. Chamavam-se vizinhos a todos os homens livres, maiores de idade, que habitavam a área concelhia há um certo tempo e que nela trabalhavam ou eram proprietários. Deles estavam excluídos os nobres e os clérigos, a não ser que se submetessem às leis comuns e abdicassem dos seus privilégios. O mesmo acontecia com as mulheres — excepção feita às viúvas —, os judeus, os mouros, os estrangeiros e, naturalmente, os servos e escravos. Aos vizinhos competia a administração do concelho. Revestia o carácter de uma administração comunitária, distinta da do senhorio que pertencia a um único titular. Para o efeito, os vizinhos integravam a assembleia (concilium), que era o grande órgão deliberativo do concelho. Conhecidas por posturas municipais, as decisões da assembleia dos vizinhos regulamentavam questões económicas relacionadas com a distribuição de terras, o aproveitamento dos pastos e dos bosques, o exercício dos mesteres, o abastecimento dos preços, não descurando, também, os preceitos de higiene, a manutenção da concórdia e dos bons costumes entre os habitantes. Mas as competências mais significativas do concelho, precisamente aquelas que distinguiam um município perfeito de outro imperfeito, eram as que se relacionavam com a administração da justiça e a eleição dos magistrados. Fixemos seus nomes e funções. Os alcaides ou juízes (dois ou quatro), também chamados de alvazis, eram os supremos dirigentes da comunidade. Os almotacés (doze no século XIII) estavam encarregados da vigilância das actividades económicas (mercados, preços e medidas), da sanidade e das obras públicas. O procurador exercia o cargo de tesoureiro e representava externamente o concelho. Quanto ao chanceler, competia-lhe guardar o selo e a bandeira do concelho. A estes magistrados acrescentavam-se, desde 1340, os vereadores (dois a seis), nomeados pelo rei de entre os vizinhos. Possuíam vastas competências legislativas e executivas, vindo a sobrepor-se, inclusivamente, à assembleia dos vizinhos e aos restantes magistrados. Alcaides, almotacés, procuradores ou vereadores, todos os magistrados pertenciam à elite social do concelho, sendo comummente chamados de homens-bons. Eram proprietários rurais e donos de razoáveis cabeças de gado nas terras do interior; já nas cidades do litoral, as suas fortunas provinham, maioritariamente, do comércio. Até ao século XIII desempenharam um papel fundamental na Reconquista e defesa do território a sul do Mondego. Por isso, a realeza os agraciara ao fazê-los cavaleiros-vilãos. Serviam na guerra a cavalo, com as suas armas de ferro e os seus séquitos de peões. Mereciam um tratamento judicial reservado aos infanções, não podendo receber açoites. Do ponto de vista fiscal, estavam isentos do pagamento da jugada e dispensados de fornecer a pousadia. Ao protagonismo social, derivado das suas riquezas e dos privilégios alcançados, os homens-bons somavam a preeminência política, já que monopolizavam os cargos e as magistraturas do concelho. Evitavam a todo o custo a participação dos nobres e dos próprios mesteirais nas vereações camarárias. Até na composição da assembleia dos vizinhos, os homens-bons se impuseram, excluindo os peões, menos favorecidos economicamente. É verdade que estes não possuíam a abastança e a disponibilidade necessárias para se deslocarem às reuniões na cidade ou vila. Mas, é verdade também, os homens-bons invocavam o pretexto de um elevado número de pessoas tornarem as reuniões conflituosas e inoperantes!